Um quadrilhão de qualquer coisa. Autor(a): Salvador Laviano.

O Filme
-Sr. Pipok, como oficial de ciências, faça algo!
-Certo, Capitão Krika. Computador, prioridade A-Aleph-Alfa-Zero! Calcule o valor de Pi com precisão infinita.
-Boa, Pipok. O intruso foi eliminado. Sr. Chatov, baixar escudos. Stock, quero velocidade de dobra em 5 minutos. Sr. Casulu, tire-nos de órbita. Urubhura, mande relatório ao comando da Frota. Vamos dar o fora!
Alguém já se perguntou como um computador sozinho poderia fazer tantas coisas ao mesmo tempo numa nave, além de manter os suportes de vida, controlar elevadores, analisar dados de todos os sensores, controlar curso, leme, armas, gravar tapes do que se passa na ponte e nas várias alas, reconhecer padrões de identificação, armazenar as ordens e diários de bordo, analisar sintomas médicos, substâncias, manter uma super biblioteca e mapas galáticos, jogar xadrez tridimensional, sintetizar comida, divertir a tripulação da nova geração em 5 holodecks (uma espécie de disk 0900 do espaço) etc?
O Truque
Ainda não temos um computador capaz de tudo isso. Seria necessária muita velocidade de processamento, altíssima capacidade de memória e alguém muito bom para programá-lo. Bancos de memória são melhores a cada dia. Programação, bem…a modéstia impede-me de tecer maiores considerações, mas quanto à velocidade, a idéia é usar o que chamamos Supercomputadores, uma engenhoca construída com centenas (ou milhares) de processadores (chips) iguais aos Pentiums, por exemplo, que temos nos nossos estúpidos micros domésticos e que travam a toda hora. E o truque foi-nos ensinado há algumas dezenas de séculos por nada menos que Alexandre, o Grande: dividir para conquistar.
Os micros comuns já dividem suas tarefas em pequenas fatias de tempo, é o tempo compartilhado (time sharing), com um só chip fazendo todo o trabalho. Já viu como a música bamboleia no CD-ROM quando o texto a ser carregado é grandão ou a impressora está atolada? Nos supercomputadores a combinação dos chips produz o processamento paralelo que é a capacidade de processar diversas instruções ao mesmo tempo, ao invés de uma após a outra, como no processamento serial dos equipamentos convencionais. A CPU destas máquinas é formada por associações de chips e a sua conexão é disposta num arranjo que se chama topologia, que pode ser em forma de anéis, árvores, malhas, cubos, hipercubos etc. A escolha correta da topologia influi na escalabilidade da máquina, isto é, poder acrescentar mais chips sem causar degradação na velocidade de processamento.
A Máquina
Engenheiros e cientistas do Los Alamos National Laboratory, Novo Mexico, EUA, e da IBM construiram um novo supercomputador, batizado de “Roadrunner” (a avezinha papa-léguas, símbolo do estado), para o Department of Energy’s National Nuclear Security Administration que acaba de atingir uma marca hstórica na velocidade de processamento.
Inicialmente projetado para pesquisas em energia Nuclear e monitorar o arsenal nuclear norte-americano, ele também será usado em Astronomia, no projeto Genoma Humano e pesquisas de mudanças climáticas. No total, ele possui 6.948 chips AMD Opteron dual-core num servidor IBM Modelo LS21. Tem 80 terabytes de memória e ocupa 288 armários do tamanho de geladeiras domésticas, requer perto de 86 km de cabos ópticos e pesa 250 toneladas. Custou US$ 133 milhões.
A nova máquina é mais de duas vezes mais rápida que o supercomputador mais rápido construído até então - o BlueGene/L, da IBM
Estas coisinhas são tão rápidas que sua velocidade não é medida em gigahertz como é usual, mas em operações de vírgula flutuante por segundo ou FLOPS. O Roadrunner atingiu a estonteante velocidade de 1,026 quadrilhão de FLOPS ou, usando um moderno prefixo do Sistema internacional de Unidades, 1,026 petaflops (vide um texto anterior meu, em algum lugar!). Só para registro, o BlueGene/L atinge 478,2 teraflops. Se todos os 6 bilhões de terráqueos fizessem contas com calculadoras, 24 horas por dia, sem parar, levariam 46 anos para completar o processamento que o Roadrunner faz em um só dia. Mas uma colher de chá de cortex cerebral humano pode, numa estimativa bem otimista, disparar 10.000 pulsos sinápticos, o que já deixa o bichão comendo poeira.
É ou não é “fiquissão”? Entretanto, estes computadores são usados apenas em grandes centros de pesquisa, complexos militares, estações meteorológicas, na NASA etc. Que pena! Mas nada tema. Acaba de sair algo para você ter na sua cozinha daqui a um par de anos.
O Chipão
Em Maio do ano passado, 2007, a IBM, lançou o Power6 dual-core, com a fantástica velocidade de 4,7 Gigahertz . Para quem não sabe, os efeitos especiais de alguns filmes como “007 - O Amanhã nunca morre”, “Men in Black”, “Titanic”, além de inúmeros comerciais para a TV foram criados em estações gráficas da Digital Equipments, usando processadores Alpha de, apenas, 1 Ghz. Já dá pra ver o sorriso de orelha a orelha dos cineastas, dos provedores Internet, dos climatologistas, dos especialistas em ciências moleculares, dos engenheiros de aerodinâmica, dos técnicos de bases estelares, dos operadores de laboratórios astrométricos da federação. É claro que vai demorar um pouco para você ter um destes no seu micro, mas à velocidade em que as coisas vão, não me admiraria ver uma coisinha destas controlando a sua torradeira daqui um tempinho.
salvadorlaviano@walla.com

























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