Home » Viagens

Lig, lig, ligs e a cidadania italiana. Autor(a): Priscila Manni.

14 Julho 2006 83 views Nenhum comentárioImprimir Texto Imprimir Texto Enviar texto por e-mail Enviar texto por e-mail

Você se irrita quando fica preso no trânsito em pleno verão sem ar condicionado? Fica nervoso quando vai a um restaurante, morrendo de fome, e demora uma hora pra ser atendido? Não pode pensar na idéia de pegar o metrô na estação da Sé às seis da tarde? É porque você ainda não viu uma colônia chinesa inteira pedindo um visto italiano.

- Senhor, não é aqui que fazemos esse serviço.

- Mas você pode fazer pra mim?

- Não, senhor, isso é feito na prefeitura.

- Mas olha aqui meu documento.

- Eu estou vendo, o senhor deve ir à prefeitura.

- Não pode fazer mesmo?

- Não.

- Mas é que só falta esse papel aqui ó.

- Dio mio, como faço pro senhor entender? Não é aqui, eu não posso te ajudar!

- E onde devo ir?

- NA PREFEITURA

A sala de espera era pequena, com as paredes pintadas de amarelo claro. Uns trinta chineses (que, muito provavelmente, madrugaram no lugar) esperavam na minha frente, com a senha na mão, sentados e de pé, ocupando quase toda a saleta. O escritório onde dois funcionários atendiam não tinha porta e um monte de cabeças chinesas fazia escadinha pra espiar o que se passava lá dentro.

Quanto mais os minutos iam passando mais colegas chegavam e se misturavam com um ou outro árabe. “O que estou fazendo aqui?”- pensei, sabendo que iria esperar horas pra finalmente ser encaminhada pra outro lugar, que me mandaria a outro, que me diria pra voltar na semana que vem.

De repente, o lugar virou uma baderna incalculável. Os chineses foram ficando impacientes, enfiavam a cabeça na sala dos funcionários e gritavam uma pergunta, furavam a fila. Eu comecei a perguntar quem era número o que, já que – PASMEM – há uma máquina de senha, mas não há o monitor ou nada que chame pelos números.

Um dos funcionários teve que subir numa cadeira, no meio do bolo barulhento de olhos puxados, e dar uma explicação geral, que era mais ou menos esta: “não fazemos mais esse serviço aqui”. Mas eles não desistiam, insistiam, insistiam, insistiam.

Eu tive vontade de chorar, de gritar, de ir embora, tudo ao mesmo tempo. Queria jogar uma bola gigantesca e fazer boliche com aquele monte de gente pedindo, passando na minha frente, enfiando a cabeça na sala dos funcionários. Respirei fundo e decidi me juntar à colônia, quem sabe, por sorte, se eu puxasse os meus olhos com as mãos, poderia me passar por um deles e começar a fazer balburdio também.

Um dos funcionários, um homem muuuuuito paciente (eu não teria 1/10 da paciência dele), me olhou no meio daquela foto de Taiwan, e perguntou:

- O que você ta fazendo aqui?

- Sou brasileira, minha família é italiana e eu…

- Brasileira??? Fala português???

- sim, sim.

- Espera então ali que eu já te atendo.

O já, muito otimistamente, levou umas 2 horas, nas quais eu fiquei pensando o que aquele homem, que parecia um imigrante africano e que falava português, fazia num escritório do governo italiano? Tive tempo pra pensar em muitas outras coisas também, na minha viagem a Roma, se todo o esforço pela cidadania valeria à pena, senti saudades da minha família, reparei que estava usando o anel que ganhei da minha tia de formatura e que eu acho que me dá sorte…

Imersa nos pensamentos, me dei conta de que o lugar foi esvaziando, o silêncio foi tomando conta da sala de espera. Eu era a única que ainda esperava.

“Sou todo seu”, me disse o homem. “Vamos sentar ali”. Eu comecei a explicar, em português, que já tinha ido a tantos lugares diferentes, que não sabia o que fazer, que me mandaram ali pra pedir uma permissão pra ficar na Itália, mas que, na verdade, eu não queria ficar, queria a cidadania.

- Você veio ao lugar errado…

Eu quis sumir, pensei “chega, desisto, estou cansada de correr atrás de tudo sozinha, dá muito trabalho ser italiana, européia, a porcaria que seja…”

- … mas posso te ajudar!

Uma luz brilhava no final do longo túnel chino-italiano. “Pode me ajudar? O que? Uma alma bondosa? Quando? Como? Onde? Por quê?”

- Na verdade, você deveria ir a um outro escritório nessa mesma rua, mas errou o número. Nós somos um sindicato que ajuda imigrantes que querem permissão pra ficar aqui. Seu caso é um pouco particular, você quer a cidadania, mas eu tenho contatos, posso te ajudar.

E ele, então, começou a fazer ligações e escreveu uma lista de tudo que eu precisava, dos nomes dos lugares, indicações, endereços, o verdadeiro mapa do passaporte italiano.

- O que você faz?

- Sou jornalista.

- Melhor ainda, podemos ajudar um ao outro.

E me disse que é de Angola, explicou que trabalha também ajudando a divulgar a cultura africana no mundo, que procura comunidade de africanos em outros países.

- Já que você é jornalista, pode me ajudar, eu tenho um site…

Eu disse que o ajudaria assim que chegasse no Brasil e perguntei o nome dele.

- Aladino, como o da lâmpada mágica, brincou.

E eu agradeci ao gênio, aos anjos, aos dragões e ao yakissoba que aquele homem apareceu na minha frente.

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (No Ratings Yet)
Loading ... Loading ...

Comente sobre este texto:

Adicionar seu comentário trackback pelo próprio site, ou subscribe to these comments via RSS.

Não faça spam, seja prudente, seja feliz.