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A vitoria e o Brasil de Téo. Autor(a): Priscila Manni.

10 Julho 2006 66 views Nenhum comentárioImprimir Texto Imprimir Texto Enviar texto por e-mail Enviar texto por e-mail

Verde, vermelho e branco por todas as ruas. “Pó poro pó pó po pó po…”, cantam os italianos. Depois de 24 anos, são campeões do mundo e os jornais deixam claro “na nossa frente, só o Brasil, com cinco vitórias”. A festa de ontem me deixou um pouco menos triste com o vexame brasileiro.

Jogaram duro, sofremos nós – que somos de outra nacionalidade, mas torcemos pela Itália – e eles, os italianos. Mereciam a vitória, fizeram valer cada minuto em campo.

Em Nápoles uma multidão lotou a Piazza Plebiscito. Bandeiras e fogos de artifício, cerveja e música napolitana. Uma festa como poucas vezes se viu.

Hoje, acordaram de peito estufado, orgulhosos, animados. Azul é a cor! O verde e amarelo terá que esperar outros quatro anos.

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“Você é brasileira???” – todos me perguntam com cara de espanto. No primeiro dia de aula, Téo, também brasileiro, me contou que mora no interior de São Paulo e veio a Nápoles por um intercâmbio da igreja, onde é um frade franciscano.

Ele tem 34 anos, é negro, um pouco tímido. Vem de uma família muito pobre, tem dez irmãos e mais de trinta sobrinhos. Eu e ele. Duas realidades completamente diversas, saídas do mesmo país.

O suíço, cheio de preconceitos, ouve minha história, ouve a história dele, olha pra ele, olha pra mim, olha pra ele de novo e não entende. Se gaba de ter escolhido uma vida sem TV e eu – que ando com a língua afiada – explico que, mesmo que pareça contraditório, tem gente no Brasil que não pode se dar ao luxo de não ter uma televisão. As razões? Muitas. Não têm acesso à informação como ele (internet, rádio, os melhores jornais e revistas), não têm esse nível cultural de quem sabe discernir quando um programa é bom ou não, não têm férias nos Alpes, em Capri nem ao menos jogam tênis durante a semana.

Téo foi o primeiro a fazer uma apresentação em italiano. Eu, ainda sem uma decisão sobre o que falar, estava evitando ligar o Brasil à pobreza, ao samba ou a futebol. É a triste imagem que todos fazem do nosso país aqui fora – apesar de eu saber que em alguma parte é natural que pensem assim.

Porém, a minha cara, a minha bagagem, a minha cor já são a própria contradição do estereotipo brasileiro. Eu sou a negação daquilo que os estrangeiros menos informados pensam que sabem sobre a nossa pátria.

Hoje Téo escancarou o Brasil a ingleses, austríacos, suíços, italianos, russos. Falou da pobreza, falou do desemprego, falou da desigualdade social, da prostituição infantil, das favelas do Rio, do tráfico, da corrupção. O bancário suíço ia se encolhendo na cadeira, perdendo qualquer argumento. Téo falava cada vez com mais propriedade. Vez ou outra usava a própria família, os amigos e conhecidos como exemplo e me olhava buscando apoio. Eu tentava complementar a exposição com algumas informações, mas ia me sentindo cada vez pior.

De repente me dei conta de que eu não fazia idéia do que Téo estava falando. O que eu podia dizer? Nunca passei fome, nunca dormi na rua, meu pai nunca ficou desempregado. Eu fui à escola, fiz faculdade, falo inglês, espanhol, um pouco de francês, estou aprendendo italiano. Conheço bons restaurantes, durmo em uma cama quente, tenho plano de saúde.

O frade franciscano terminou a aula com a classe boquiaberta. Sua grande preocupação é dar oportunidade a quem, como ele, não sabia ao menos escrever essa palavra. Ensina, trabalha duro, ajuda com o “pouco” que tem. E a gente perde a noite porque não sabe em que banco abrir uma conta, em que universidade estudar ou a próxima viagem que queremos fazer.

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